A Evolução e os Perigos da Gestão do Património Cultural: Análise e Resumo

O discurso de Luís Oosterbeek, analisado na sua íntegra, oferece uma reflexão crítica sobre a evolução do conceito de património cultural, os seus perigos atuais e o papel das humanidades. A análise por ele feita divide-se em várias vertentes que percorrem a história recente e os desafios do futuro.

1. A Origem Humanista e Universal do Património
Oosterbeek começa por notar que o termo património é recente, tendo substituído a ideia de história ou passado. No período pós-Segunda Guerra Mundial, figuras como André Malraux (que criou o primeiro Ministério da Cultura em França, substituindo os antigos Ministérios da Propaganda) adotaram uma perspetiva multicultural. A ideia central era que o património transcendia o nacionalismo, monumentos como o Convento de Cristo, em Tomar, passaram a ser vistos como pertença da humanidade, estando apenas confiados à guarda e gestão dos portugueses. 

Esta visão esteve na base da Lista do Património Mundial da UNESCO e procurava focar naquilo que unia a espécie humana para evitar novas guerras, construindo espaços de convivialidade comparáveis a chão sagrado, onde a guerra não poderia entrar. Como exemplo prático, Oosterbeek cita Jerusalém, onde a coexistência de património muçulmano, judaico e cristão atua como um travão à destruição total, pois todos percebem que "quando cair uma bala num os outros são destruídos.

2. Pós-Modernidade, Fragmentação e Património Imaterial
A partir dos anos 80, a pós-modernidade trouxe uma reação contra esta visão universalista, passando a valorizar as narrativas alternativas e as histórias regionais.  No entanto, Oosterbeek critica a forma como a academia comunicou esta mudança, transmitindo a ideia perigosa de que a humanidade é sobretudo diferença, o que gerou uma forte fragmentação.

Esta fragmentação culminou na afirmação do património imaterial, que o orador considera ter sido construído com enorme ingenuidade política (citando o caso de Gilberto Gil como ministro e músico, e não académico), dissociando-se do rigor metodológico da história. Oosterbeek alerta que classificar imaterialidades pode [congelar] comportamentos e sublinha que nem todas as tradições culturais são simpáticas, dando exemplos extremos; bater nas mulheres e a pedofilia também são tradições culturais. Ele aponta a radical subjetividade destas escolhas, questionando por que razão a arte da falcoaria é património imaterial e as touradas não o podem ser.

3. Mercantilização e o Regresso do Nacionalismo
Com o distanciamento da História, a gestão do património virou-se para o turismo e para a criação de centralidades para ganhar dinheiro. Pese embora dinamizar as economias locais seja positivo, Oosterbeek nota que isso fez regressar um discurso nacionalista de exclusividade (nós temos aquilo que vocês não têm), o que é exatamente o oposto da ideia partilhada e unificadora da Lista do Património Mundial. 

A patrimonialização tornou-se uma seleção dos vestígios do passado, comparável a uma Arca de Noé: perante uma crise onde temos de fugir, a escolha do que levamos na mala define o futuro. Se essa escolha visar apenas vender mais ou afirmar a superioridade de uma cultura em detrimento das outras, o nosso futuro será muito mais fragmentado, mais violento, mais dividido.

4. A Ditadura das Emergências, Soluções e a Crise na UNESCO
O orador é altamente crítico em relação ao uso generalizado de palavras como emergência e solução. O discurso de emergência e de cataclismo constante tende a paralisar ou desligar as populações, enquanto a obsessão por soluções de curto prazo face à incerteza ignora que as sociedades precisam de fazer escolhas profundas e aceitar perdas racionalizadas. As catástrofes não se evitam apenas com soluções técnicas, mas com a capacidade de transformar a gestão de recursos.

A este propósito, Oosterbeek critica a própria UNESCO por esquecer a sua missão basilar. Num fórum recente, em vez de discutir a estratégia a longo prazo para a educação, ciência e cultura, a organização perdeu-se na emergência de discutir quem eram os culpados no conflito do Médio Oriente, replicando debates que pertencem à ONU. Ele defende que a paz se constrói na mente das pessoas através da noção de dignidade e requer imperativamente a ideia de um património comum da humanidade.

O Regresso Incontornável às Humanidades
Para evitar a catástrofe civilizacional e reenquadrar o património, o académico sublinha a urgência do regresso às humanidades. Oosterbeek defende que o núcleo central de qualquer Universidade sempre foram as humanidades (a ética), alertando que uma instituição focada exclusivamente em tecnologia não é uma universidade, mas apenas uma escola técnica. Ele lembra que figuras como Einstein foram grandes humanistas, opondo-se à atual extrema especialização do saber.

Por fim, descontrói o modelo contemporâneo de sustentabilidade, classificando como um "absurdo do ponto de vista teórico" a ideia de que se pode separar economia, sociedade e ambiente em gavetas estanques, uma vez que não existe sociedade sem economia nem economia sem sociedade.

Em suma, a íntegra da intervenção é um veemente apelo à racionalidade, exigindo que o património não seja reduzido a um produto turístico ou a um mero instrumento de divisão política, mas que recupere o seu referencial ético e histórico para garantir a paz e a sobrevivência a longo prazo.

Bibliografia
GLOBALOGIA - Centro de Estudos Globais. (n.d.). Luís Oosterbeek. YouTube. (Excerto de transcrição do vídeo analisado

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