A Ilusão Civilizacional e a Fome de Sentido
Ironicamente, vivemos numa era hipertecnológica que padece de uma severa «anorexia espiritual». José Eduardo Franco adverte, de forma reveladora, que a fome de cultura é a raiz de todas as fomes. Sem ela, a sociedade limita-se à mera manutenção da sobrevivência civilizacional e condena-se à desumanização. A cultura não é, portanto, um verniz erudito de natureza burguesa, mas o esforço vital e primordial através do qual o ser humano transcende a sua estrita condição animal.
O Padre Manuel Antunes clarifica esta urgência ao opor ontologicamente cultura e civilização. A cultura pertence ao domínio do ser, constituindo a vertente criadora e transcendente do indivíduo. Na outra face, a civilização inscreve-se na esfera do ter, ligada à técnica material e ao progresso imediato. O drama contemporâneo ilustra de forma exemplar esta tensão, atingimos o zénite civilizacional com a inteligência artificial e a globalização digital, mas definhamos culturalmente, reduzidos ao conformismo de um utilitário homo mechanicus.
Esta crise axiológica assume contornos particularmente alarmantes na visão crítica do professor Luís Oosterbeek acerca da mercantilização do saber e da memória. Ao abandonarmos o ideal humanista que sublinha as semelhanças que unem humanidade, o passado e o património degradaram-se em meras atrações turísticas orientadas para o lucro. O resultado é uma visão fragmentada da história, que alimenta perigosos discursos nacionalistas de exclusão. Onde deveríamos reconhecer um «chão sagrado» comum, vemos apenas a centralidade de um negócio.
É neste terreno inflamável que o choque entre cultura e globalização se torna particularmente evidente. Marília Futre-Pinheiro expõe de forma contundente como os pilares humanistas clássicos e iluministas enfrentam hoje o rolo compressor de uma massificação sem precedentes. Consumimos produtos culturais numa espécie de indigestão coletiva, como quem devora junk food, anestesiados por um ciberespaço que subverte a própria noção de realidade, transformando o possível num artifício que se impõe como real. Perante esta americanização e esta ditadura do consumo, a resposta não é a regressão, mas antes a glocalização, um antídoto conceptual e prático que articula a defesa irredutível da matriz local com uma integração harmoniosa no plano universal.
A crise europeia contemporânea é, em última instância, uma profunda crise de sabedoria. Para salvar o homem de amanhã da sua própria obsolescência, precisamos de menos civilização do espetáculo e de muito mais utopia mobilizadora, pensamento crítico e exigência cultural.
Por Albertina Macunge
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