Reflexão Crítica: Os Desafios da Globalização, Ética e Cidadania

A exiguidade do espaço obriga-nos a ir à raiz do problema: como conciliar um mercado global muitas vezes predatório com a dignidade humana? A interligação entre Globalização, Ética e Cidadania exige mais do que aceitar o status quo; exige uma postura crítica e ativa.

Começando pelo Empreendedorismo e Globalização, o discurso dominante tenta convencer-nos de que a economia global é uma inevitabilidade neutra que a todos beneficia (Carrilho, 2019). Contudo, a reflexão crítica mostra-nos que este modelo perpetua um verdadeiro neocolonialismo, agravando assimetrias e impondo uma massificação cultural e consumista ditada pelas potências do Norte (Vila-Chã, 2003). A resposta empreendedora a esta formatação não passa pela rejeição do mundo, mas sim pela "Glocalização" (Franco, 2019): usar o palco planetário para afirmar a diversidade local, recusando a hegemonia das multinacionais sem rosto. É neste ponto de tensão que entra a Ética. Num mercado onde o lucro justifica frequentemente a deslocalização para países com trabalho escravo ou leis ambientais fracas, a ética não pode ser um mero acessório de marketing ou o estrito cumprimento legal (Sanches, 2019). Como adverte Adela Cortina (2003), a racionalidade fria do contrato e do interesse egoísta tem de dar lugar a uma ética global da corresponsabilidade, fundada no reconhecimento recíproco. O progresso económico e técnico tem de estar subordinado ao progresso humano.

Por fim, esta ética radical exige uma nova Cidadania. As democracias liberais prometem igualdade, mas falham na prática (Romero, 2003). Uma perspetiva crítica revela que a cidadania não se resolve apenas distribuindo os mesmos recursos a pessoas estruturalmente desiguais. Exige antes erradicar a "opressão institucional" e garantir a todos as "capacidades" reais para uma vida digna, dando verdadeira voz e poder de decisão aos grupos marginalizados.

Em suma, agir no mundo global exige romper com o conformismo. O verdadeiro empreendedorismo só será ético se ousar reestruturar as dinâmicas de poder e promover ativamente uma cidadania autêntica e inclusiva.

Com estima, 
Albertina Macunge Domingues 


Bibliografia 

* Carrilho, T. (2019). Globalização económica. In J. Jardim & J. E. Franco (Eds.) *Empreendipédia: Dicionário de educação para o empreendedorismo* (pp. 381-383). Gradiva.
* Franco, J. E. (2019). Globalização e glocalização. In J. Jardim & J. E. Franco (Eds.) *Empreendipédia: Dicionário de educação para o empreendedorismo (pp. 383-385). Gradiva.
* Sanches, A. (2019). Ética. In J. Jardim & J. E. Franco (Eds.). Empreendipédia: Dicionário de educação para o empreendedorismo (pp. 342-344). Gradiva.

Artigos de Revistas Científicas:

* Cortina, A. (2003). Una ética global de la responsabilidad. Revista Portuguesa de Filosofia, 59, 35-45.
* Romero, M. X. A. (2003). Cidadania e igualdade: Capacidades e necessidades. *Revista Portuguesa de Filosofia, 59 (1), 47-68.
* Vila-Chã, J. J. (2003). A globalização: Aspetos teóricos e implicações práticas. *Revista Portuguesa de Filosofia, 59 (1), 3-31.


Comentários

Mensagens populares deste blogue

A Ilusão Civilizacional e a Fome de Sentido

A Evolução e os Perigos da Gestão do Património Cultural: Análise e Resumo

Atividade 4